Arquivo para Reflexão | Página 3 de 3 | Sorvete de Chiclete
03 • agosto • 2015

O caos essencial


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Eu me sento ali, no mesmo lugar, e penso sobre as coisas. Tento entender as coisas que estão acontecendo, bem devagar, pra ver se tudo vai se ajeitando melhor. E não adianta muito: eu enxergo o erro, mas continuo querendo controlar as coisas numa medida em que só faz elas se atrapalharem mais e que eu não consigo exatamente manter organizado.

Tentar deixar tudo muito certinho vai meio que me pirando, minha natureza é de bagunça mesmo. É tanto esforço pra organizar, que não sobra nada pra executar o que foi organizado, uma tentativa inútil de colocar no lugar coisas que não precisam realmente ficar paradinhas sempre no mesmo quadrado.

O pior é que sem organização não faço nada. Mentira, eu até faço, mas no meu tempo e não do tempo do mundo. Infelizmente, o mundo é maior que eu, mais cruel, exigente e controlador.

Custei a entender que existem coisas que necessitam do caos, que ele é essencial em certos momentos da vida e que muitas coisas não aconteceriam sem. Nem sempre é fácil aceitar que algumas coisas precisam de doses cavalares de descontrole, que se acaba encontrando algum sentido no incontrolável. É como aquela descarga de adrenalina louca que faz mães levantarem carros para salvar a vida de seus filhos, ou que faz o nosso coração acelerar e os pelos do corpo se arrepiarem quando ouvem um barulho na cozinha no meio da madrugada. Isso também é caos, é algo que sai da rotina e do que planejamos.

Veja bem, eu acho importante planejar, faz gente ter foco nos desejos, cuidar do nosso dinheiro ou mesmo preparar aquela surpresa legal pra alguém, mas tudo que se faz necessita de um pouco de leveza. Não é preciso levar tudo sempre tão a sério. Necessita-se deixar.

Deixei.

Deixei pra lavar a roupa amanhã, deixei a cama bagunçada mesmo, deixei aqueles papéis pra organizar depois, deixei o papel de chiclete largado na escrivaninha. Deixei o computador em casa, deixei pra tirar aquelas fotos no fim de semana. E vou deixando, deixando…

Até que uma hora não tem mais o que deixar: deixei, já foi, já aconteceu, sem eu nem precisar controlar. E, olha, eu estou apanhando legal enquanto aprendo a dar espaço pra vida me levar, sozinha, por onde acha que eu devo ir.

22 • janeiro • 2015

O corpo perfeito é o meu


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Olha, eu juro que há tempos venho escrevendo e reescrevendo sobre isso.

Nós somos humanos. 7 fucking bilhões de pessoas no mundo. E um bilhão é praticamente um número infinito, imagine quase-infinito vezes 7? Salvo uma pequena parcela da população que se encaixa no quesito gêmeos da coisa, não existe ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Nunca vai existir uma Manuella igualzinha a mim, com o mesmo peso, a mesma altura, as mesmas ideias, os mesmo defeitos ou qualidades. E, ufa, ainda bem! Imagina duas de mim soltas por aí, fazendo mimimi na internet?

Em eras da internet e da liberdade de expressão, não consigo simplesmente entender qual o motivo, razão ou circunstância que ainda leva as pessoas a achar que todos devemos ser iguais. Ou que não iguais, mas todos magros. Ou todos altos, ou que vistam isso, que calcem aquilo, ou qualquer coisa do tipo. Que não gostem disso, que comprem aquilo, que não se fotografe com pau de selfie. Que não vá a praia de biquíni porque não está com a aparência que alguém, em algum momento, disse que era a correta.

Aqui eu falo das coisas que gosto e uma delas é moda. A minha moda. E quero que todo mundo que dê um clique aqui se sinta livre, se identifique com algo, mas nunca se sinta regrado. Ou rotulado. Todos os dias somos bombardeados por regras e padrões que devemos quebrar. Você pode, e deve, ter opinião, mas saiba o limite onde ela pode chegar.

Não me importa se todo mundo está no meio dos seus projetos verão. Eu não estou e vou comer brigadeiro a tarde toda, se eu quiser. Eu não sou obrigada, e você também não. Não ligo se o verão pede cabelo curtinho, eu estou aqui feliz da vida penteando meu cabelão e vendo ele crescer. O verão é meu e eu faço dele o que eu quiser. E você também deveria.

A gente precisa se gostar, mas acima de tudo as outras pessoas precisam aceitar nossa liberdade de ser o que quiser, como quiser. Se a gente não tentasse se encaixar tanto, talvez as pessoas também não insistiriam em nos fazer caber dentro de tantos moldes. E são moldes tão duros com a personalidade e a individualidade de cada um, que vão tirando o brilho e mágica da diferença entre cada humano desse mundo. Por mais que muita gente pense parecido comigo, muito mais gente pensa sobre o corpo alheio do único jeito que não deveria: com uma autoridade que não lhe cabe.

Ninguém tem o direito de ser contra o seu corpo, o seu jeito e os seus gostos, eles são seus e quem deve cuidar disso é você mesmo. O corpo perfeito é o meu. É o seu. É qualquer corpo que seja feliz.

21 • outubro • 2014

Pensar mais no que temos


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Às vezes acontecem algumas coisas que nos fazem repensar outras pequenas coisas. Podem ser boas ou ruins, mas geralmente as coisas ruins nos fazem pensar mais profundamente. Paramos para pensar mais no que já temos e menos no que queremos ou estamos ansiosos por ter, mais nas coisas boas e simples do dia a dia e menos naquelas que nos aborrecem. Quando pensamos direitinho, parece que três coisas boas acontecem para cada ruim que já passou.

São coisas que nem todo mundo vê como boas, só lá dentro nós sabemos, até porque também só lá dentro sabemos o quanto “aquela coisinha ruim” foi (ou ainda é) ruim pra gente. É mais sobre ver o lado bom das coisas, sabe? O copo meio cheio. Todo mundo diz, eu sei. Todo mundo tenta ensinar isso pra gente, também sei. Mas certas coisas a gente tem que aprender sozinha mesmo. Na marra, na porrada, com um pouco de dor. Daí a gente não esquece, aprende de verdade. Tipo uma tatuagem que só a gente vê.

A chuva cai lá fora, mas só a gente sabe que tipo de lágrima cai aqui dentro. Se é de felicidade ou de tristeza, ninguém precisa saber mesmo, só você. O importante mesmo é agradecer pelo que tem. É fazer um exercício de olhar ao redor e celebrar toda e qualquer coisa boa que você tem, ou que te aconteceu. Se você não enxergar de cara, faz favor e tenta mais um pouco. Porque eu sei que está aí, em algum lugar, aquela coisa grande ou pequena que te fez sorrir. E você vai achar, é só procurar. Prometo que não demora muito, viu? É mais fácil perceber e ser grato a essas coisas quando “aquela coisinha ruim” acontece, mas a chave de tudo é aprender a não ver esse lado da vida só nesses momentos. Precisamos agradecer por tudo de bom, na maior parte do tempo, mesmo que a gente não saiba exatamente o que foi ou o que é. A tarefa é difícil, mas uma hora a gente se acostuma com ela.

É só uma reflexão e você aí deve até estar pensando que eu sei muito das coisas. É, vamos dizer que eu não sei de muita coisa. Mas estou aí tentando, né? Um dia eu aprendo também.

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