Arquivo para Reflexão | Página 2 de 3 | Sorvete de Chiclete
14 • dezembro • 2015

Ame sua solidão


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Eu estava lá, sentada na minha escrivaninha trabalhando em algumas crônicas, tomando uma taça de vinho. Tinto. Chileno. Caramba, há quanto tempo eu não bebia mesmo? Pois é. Parei um minuto para admirar minha decoração de Natal, está bem simples, mas essa cortina de luzinhas de led provavelmente não vai mais sair dali, combinou bem demais com meu quarto pra desfazer assim, quando o fim de ano passar.

Meu quarto. MEU. Ainda é engraçado ter uma casa só minha que chamo de lar, pelo menos uma vez por dia eu ainda digo “lá em casa” pensando na casa da minha mãe. É isso que aquela outra casa é agora: a casa da minha família e só. A minha casa de verdade é aqui mesmo, onde o coração está bem aconchegado, feliz, sossegado.

Uma das coisas mais curiosas desde que vim pra cá é exatamente essa sensação de lar, que veio quase automaticamente junto com as caixas da mudança, como se fosse um botão que eu liguei e tudo de repente mudou. Ok, eu sei que mudou, mas e aquela fase de adaptação? O sentir-se sozinha? A saudade da comida e do calor da casa da mamãe? Pois é, não veio, porque eu não estou nem nunca estive sozinha.

Cada dia que passa por aqui, quando só eu estou em casa por horas, com meu próprios pensamentos, maluquices e experiências culinárias percebo que menos me sinto só. Morar sozinho é tanto se abrir para o mundo quanto abrir os olhos para nosso interior, é se conhecer de um jeito que ter alguém praticamente vinte e quatro anos ao seu lado não permite, é amar estar num silêncio antes estranho, mas que agora é reconfortante porque a acústica é perfeita pra ouvir a própria voz.

Morando sozinha aprendi a amar minha solidão. Cada minutinho comigo mesma é muito precioso, num processo de se conhecer e gostar cada dia mais de quem você é. A melhor companhia desse mundo sempre esteve ali, só ficava acanhada num canto sem muito espaço pra se mostrar.

Eu amo estar sozinha porque nunca estou realmente só: tenho a mim e isso basta.

05 • novembro • 2015

São apenas fotos


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O assunto da semana vai ser essa modelo que revelou os segredos ~obscuros~ da vida por trás das fotos no Instagram. A mocinha editou as legendas de suas fotos contando a realidade sem filtros de cada foto, de cada pagamento, de cada publi que ela fez.

Um dos meus personagens favoritos da vida tem uma frase icônica que diz: “Se você é bom em alguma coisa, nunca faça isso de graça”

E eu bem concordo com ele, sabe? Não acho que exista problema em você ganhar dinheiro com suas redes sociais, nem fazer isso sem gostar, por muito menos outras pessoas fazem coisas bem piores pensando apenas nos lucros materiais que terão. Pode não ser pelo dinheiro, pode ser pela fama ou porque simplesmente ama levar essa vida estampada em fotos cuidadosamente montadas para ficarem impecáveis. As escolhas de vida são individuais, não cabe a ninguém julgar a escolha alheia.

Refleti e cheguei à conclusão de que se trata um pouco também da importância que a gente dá para as redes sociais para o “eu” que as pessoas mostram nela, se trata do quanto observamos a vida do outro por lentes e filtramos só o que queremos. Se trata até do quanto a sociedade exige que a gente esteja sempre sorrindo e com tudo em ordem.

Quantos de nós estão aí realmente preocupados com a reflexão levantada, ao invés de olhar o caso dela meramente como um fato (um viral, uma tentativa de aparecer, marketing e tudo mais)? E quantos de nós já pararam pra pensar que ninguém alimenta essa cultura além de nós mesmos? A gente é que dá audiência e que tá sempre ali dizendo pro outro que tem que estar feliz, viajando, comendo bem, malhando cedo de manhã, comprando sapato que pagaria as minhas contas de uns dois meses. Senão não tem like, senão ninguém vai te seguir.

Claro, ninguém sai exibindo por aí quando está mal ou tira selfie logo cedo pra ostentar as olheiras da madrugada trabalhando. A gente não é obrigado a compartilhar tristeza e coisas ruins, por favor né, mas daí a achar que ser menos que perfeito é uma coisa pra se ter vergonha ou tornar uma foto um padrão a se seguir é demais.
Esse nosso anseio de fazer de tudo um conto de fadas, onde nada dá errado, ninguém se frustra, acorda com o cabelo arrumado e tá sempre com a pele bonita também é responsável por isso. Qual o problema em estar de mau humor? Qual o problema em comer uma gororoba de miojo com feijão naquela fome sem jeito da madrugada? Eu digo: nenhum. Deixa eu contar um segredinho: a vida real é assim mesmo, completamente imperfeita. A gente quebra coisas, suja a mesa de farelo na hora de comer biscoito e a areia da praia entra na calcinha do biquíni se a gente der bobeira.
Quanta importância você dá para o que está visível somente aos olhos?
23 • setembro • 2015

Em tempos assim


primavera
Antes de qualquer coisa, sugiro que você dê play nessa música aqui e escute enquanto lê (ou antes, ou depois, só precisa escutar ok?).

As coisas andam meio paradas por aqui, é óbvio que vocês notaram. Eu poderia vir aqui e dizer que é porque as coisas andam mais complicadas no trabalho, ou que essa onda desesperadora de calor me deixa bem cansada, ou mesmo que eu tive problemas que me fizeram passar um tempo bem grande fora de casa e do meu melhor workspace no mundo. Enfim, uma lista enorme de motivos porque eu tenho estado tão ausente por aqui.

Lidando com a realidade, não foi bem assim. Eu me afastei simplesmente porque sim. Porque eu precisava me fechar um pouquinho e ter algum tempo de relacionamento sério comigo mesma, de um espaço para falar sozinha e encarar algumas coisas. Eu precisava relaxar um pouco pra voltar a escutar meu coração e entender mudanças que precisavam acontecer e também as coisas que deveriam ficar do jeito que estão, talvez até as que precisariam de alguma maneira parar por ali mesmo.

Em momentos assim é que a gente consegue se olhar de dentro e entender cada um dos nossos medos, sonhos e objetivos. Percebemos que passar por cima do que nos deixa apavorados e ter força pra botar os pés na estrada que nos leva ao que desejamos depende apenas de nós mesmos, na maior parte das vezes. Ainda assim, é possível perceber também que há coisas que não podemos fazer sem alguma ajuda – pequena ou grande – e que nem sempre as pessoas sabem ou estão dispostas a nos ajudar, mas tudo bem elas não entenderem o que realmente tem importância dentro da nossas vidas e dos caminhos que escolhemos trilhar. Eles fazem parte de nossas escolhas e só a gente vai saber mesmo o quanto vale a pena andar por lá.

Sempre que eu tiro um tempo bem reflexiva e reclusa eu encaro muitas coisas sobre a vida, o Universo e tudo mais. Eu realmente aprendo a viver de novo de acordo com um roteiro que eu teria orgulho de assistir, a me entregar ao que acho que vale a pena, a amar partes valiosas de mim que ficam bem escondidas e esse tempos assim se repetem mesmo. Não tive como evitar de lembrar da música que eu indiquei lá em cima, né?

De alguma forma, isso foi um tipo de primavera que floresceu em mim, me mostrou mais cores e flores onde eu achava que tudo estava seco. Acho que a gente também precisa se renovar de vez em quando em estações, não é mesmo?

P.S.: feliz dia do sorvete <3

16 • agosto • 2015

O vento me contou


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Era uma vez, numa manhã fria, porém ensolarada… Não! Espera, não é bem assim que gosto de começar a contar histórias. Eu adoro contar coisas e casos pras pessoas, mas tem coisas que são muito mais do que simples histórias que terminam com felizes para sempre.

Bem, vamos tentar recomeçar. A manhã continua fria e ensolarada, mas os olhos já não estão mais inchados do choro, o coração não parece mais preso dentro de uma gaiola onde só cabe um grilo, os caminhos não parecem mais tão obscuros e confusos a seguir. Uma minúscula luzinha brilha lá no fundo, um misto de futuro, esperança, foco.

Naquele dia, o vento me contou sobre coisas que ainda estão por vir, me contou que não sei de tudo e tenho muito a aprender, me contou que precisamos sim dar ouvido ao coração, mas nunca ao que outros dizem. Ele me disse, não tão claramente, que há pessoas querendo te dizer o que fazer, enquanto outras delas te dizem apenas pra fazer e contar com seu apoio para o que precisar. Você escolhe as que estão do seu lado e com quem deseja compartilhar coisas boas.

De tudo que ele me diz, nada significou mais do que me alertar para os ventos de mudança. Aqueles mesmos dos ditados das nossas avós e que continuamos sem enxergar, demoramos a aceitar e custa muito se adaptar. Daquele que deixam a gente confusa por dentro, sem se decidir por baunilha ou morango, pelo estável ou o sonho, pelo preto ou pelo branco.

Sempre há as cores, o colorido, as nuances em cada situação, em cada palavra, em cada um que está dentro ou fora, em cada acontecimento. Feliz, entendi que o que estava por vir era mudança, desconfortável, levemente sofrida, como toda viagem para longe da zona de conforto começa.

Tem algo sobre o vento que nunca vou entender: essa habilidade de trazer consigo coisas boas. Pode ser uma brisa, ou um vendaval, não há como prever. Sei, muitas vezes ele precisa varrer um bocado de coisas antes de permitir que essas, tão boas, cheguem. Somos tolos e nem sempre enxergamos um pouco além do que é visível, mas elas sempre vem, com o devido esforço e exatamente na hora que deveriam acontecer.

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